Rio já tem espera de dias por UTI e está à beira de novo colapso

Rio já tem espera de dias por UTI e está à beira de novo colapso

 

A escada onde Sidineia est√° sentada até hoje é do CER (Centro de Emergência Regional) da Barra da Tijuca, na zona oeste carioca. É uma das portas de entrada para um sistema de saúde público e privado que est√° pela segunda vez à beira de um colapso, fazendo médicos e enfermeiros temerem os dias de desespero que viveram em abril e maio.

Em uma publica√ß√£o nas redes sociais, o coletivo "Nenhum Servi√ßo de Saúde a Menos", que reúne profissionais da √°rea, pede que os seguidores relatem como est√° a situa√ß√£o em suas unidades. As respostas variam entre "aumentando", "tenso", "lotado" e "caos".

"Estamos basicamente voltando ao início da pandemia, quando ocorreu aquele colapso todo. J√° est√° faltando saída de oxigênio nas emergências e tem paciente aguardando em cadeira ou maca em UPAs [unidades de pronto atendimento] nas zonas norte e oeste", diz Pedro Archer, diretor do sindicato dos médicos (Sinmed/RJ).

Ele relata que durante a pandemia muitos profissionais deixaram a rede municipal por atrasos nos pagamentos. Também afirma que, segundo colegas da central de regula√ß√£o de vagas do estado, j√° h√° novamente doentes da capital sendo levados para o hospital de referência Zilda Arns, em Volta Redonda, a mais de 1h30 de dist√Ęncia.

Os números da prefeitura explicam o porquê. A ocupa√ß√£o das UTIs públicas na cidade estava em 94% na noite desta quinta (26). Na pr√°tica, porém, os 33 leitos disponíveis (de um total de 548 existentes) n√£o s√£o suficientes para os que esperam por uma transferência.

Essa fila vem crescendo cada vez mais e j√° chega a 92 pessoas no Rio e na regi√£o da Baixada Fluminense, de onde muitos saem em busca de leitos na capital. É quase o triplo do registrado duas semanas antes (32 pessoas), quando a ocupa√ß√£o das unidades de terapia intensiva ainda estava em 77%.

A gest√£o de Marcelo Crivella (Republicanos) ressalta em nota que "as pessoas que aguardam leito de UTI est√£o sendo assistidas em leitos de unidades pré-hospitalares, com monitores e respiradores". Em casos como o de Cleber, porém, a unidade diz à cuidadora que n√£o tem como fazer os exames necess√°rios.

"O hospital n√£o pode superlotar, tem uma quantidade X de vagas, ent√£o o paciente vai para as unidades de baixa complexidade, que v√£o enchendo. Isso j√° acontece habitualmente no Rio porque temos falta de leitos, ent√£o agora com certeza est√° acontecendo", diz o médico Pedro, que trabalha em um centro de aten√ß√£o b√°sica e pediu para ter o nome trocado.

Ele diz que pela primeira vez em meses teve dificuldade para remover um paciente para um hospital nesta semana, porque n√£o havia leito disponível. A ambul√Ęncia, que normalmente levava uma hora, demorou quatro. "N√£o estamos no mesmo patamar de abril ou maio, quando o paciente ficava o dia todo esperando, mas est√° demorando mais."

Apesar de ainda n√£o ter sido t√£o afetado como a capital, o estado também tem números que preocupam. Em apenas dez dias, a taxa de ocupa√ß√£o de leitos estaduais disparou de 56% para 79% nas UTIs e de 22% para 48% nas enfermarias.

A lista de pacientes que aguardam por transferência também saltou de 152 para 276 no mesmo período. Se na nota do último dia 17 a Secretaria Estadual de Saúde ressaltava que "n√£o havia falta de leitos para Covid no estado", no comunicado desta quinta o aviso n√£o aparece mais.

Os leitos públicos vinham sendo reduzidos nos últimos meses. O único hospital de campanha que restou foi o da prefeitura, j√° que a gest√£o do governador afastado Wilson Witzel (PSC) fechou todas as suas unidades. O governo federal também desativou as poucas vagas que existiam no Hospital de Bonsucesso após um incêndio em outubro.

Na segunda (23), o governador em exercício Cl√°udio Castro (PSC) e Crivella anunciaram em conjunto a abertura de 214 vagas espalhadas por hospitais "o mais brevemente possível". A reportagem apurou que havia um total de 339 leitos impedidos na cidade nesta quinta, ou seja, que existem mas n√£o podem ser usados por falta de profissionais, oxigênio, insumos etc.

O governador também citou testagem em massa e diagnóstico precoce como medidas para conter o vírus, mas algumas unidades relatam falta de testes. O prefeito disse ainda que vai endurecer a fiscaliza√ß√£o contra aglomera√ß√Ķes e eventos que têm se espalhado pela cidade.

Crivella, que concorre à reelei√ß√£o contra Eduardo Paes (DEM), permitiu festas e shows desde 1¬ļ de outubro, com restri√ß√Ķes. Ele anunciou a última fase de flexibiliza√ß√£o no início deste mês, liberando aulas, praias e restaurantes self-service. Na semana passada, disse à CNN que "n√£o h√° a menor hipótese de ocorrer" um lockdown.

Enquanto isso, a rede privada passa pelo mesmo aperto da rede pública. "Os leitos para Covid est√£o praticamente cheios", diz o médico Graccho Alvim, diretor da principal associa√ß√£o de hospitais do estado (Aherj). Segundo ele, parte das unidades reabriu leitos, reiniciou a triagem separada para pacientes com sintomas do vírus e diminuiu exames e cirurgias eletivas.

O movimento de transferir pacientes da capital para outras cidades também tem acontecido nos hospitais particulares. "A gente ainda n√£o est√° em colapso, mas é preciso chamar a aten√ß√£o da popula√ß√£o porque tem menos leitos disponíveis", ele alerta.

Publicado primeiro em Banda B ¬Ľ Rio j√° tem espera de dias por UTI e est√° à beira de novo colapso