Brasil pede à Índia garantia e previsão de entrega de vacinas contra Covid

Brasil pede à Índia garantia e previsão de entrega de vacinas contra Covid

Interlocutores no Planalto têm a expectativa de que o envio dos 2 milhƵes de doses ocorra na próxima semana, mas outros envolvidos nas negociaƧƵes têm previsƵes menos otimistas.

Eles apontam que as autoridades indianas ainda nĆ£o deram sinalizaĆ§Ć£o de que a entrega possa ocorrer ainda neste mês.

Quem acompanha as conversas ressalta que a Índia tem demonstrado irritaĆ§Ć£o com a insistência do governo Bolsonaro e, principalmente, com a publicidade dada aos planos de buscar os imunizantes no país asiĆ”tico. Com o aviĆ£o adesivado no Recife (PE) e o Planalto dizendo que ele decolaria na sexta-feira (15), o governo indiano se viu obrigado a avisar Brasília que a conclusĆ£o da operaĆ§Ć£o nĆ£o seria possível naquele momento.

A emissĆ£o de uma autorizaĆ§Ć£o de venda para o exterior antes mesmo que a Índia iniciasse seu plano de vacinaĆ§Ć£o seria entendida como um descompromisso com a própria populaĆ§Ć£o.

Interlocutores menos otimistas alertam ainda que nĆ£o veem razƵes para a Índia priorizar o Brasil antes de atender objetivos geopolíticos mais imediatos, como os países vizinhos e mesmo naƧƵes com quem têm relaƧƵes mais profundas, como ArĆ”bia Saudita e Ɓfrica do Sul.

O governo tem enviado sinalizaƧƵes à Índia para facilitar a publicaĆ§Ć£o da autorizaĆ§Ć£o.

Além de tentar dar menos publicidade às conversas, a delegaĆ§Ć£o brasileira junto à OMC (OrganizaĆ§Ć£o Mundial do Comércio) nĆ£o manifestou oposiĆ§Ć£o quando os indianos defenderam recentemente sua ideia de relaxar obrigaƧƵes sobre patentes de medicamentos durante a pandemia.

No ano passado, quando o tema foi discutido na entidade, o Brasil se alinhou aos Estados Unidos e se opôs à iniciativa era era patrocinada pela Índia e Ɓfrica do Sul.

Embora o Brasil nĆ£o tenha mudado de posiĆ§Ć£o, uma vez que para tanto teria que endossar o pleito indiano, o silêncio foi uma forma de evitar desagradar Nova Déli no momento em que o Brasil depende da boa vontade do país asiĆ”tico.

Desde dezembro, quando comeƧaram as tratativas entre a Fiocruz e o Serum Institute da Índia para a compra das 2 milhƵes de vacinas, o governo brasileiro tem feito gestƵes junto à Índia para possibilitar a venda.

No início de janeiro, Bolsonaro enviou uma carta para o premiê Narendra Modi pedindo urgência para o tema e o ministro Ernesto Araújo (RelaƧƵes Exteriores) apelou para seu contraparte indiano, Subrahmanyam Jaishankar.

Na terƧa-feira (19), a Índia anunciou que comeƧaria a exportar vacinas nesta quarta-feira (20) para seis países. Os destinos sĆ£o ButĆ£o, Maldivas, Bangladesh, Nepal, Mianmar e Seychelles.

Foto: Agência Brasil

Conforme o jornal Folha de S.Paulo publicou, Araújo estĆ” sob forte pressĆ£o de auxiliares de Bolsonaro após o atraso na operaĆ§Ć£o montada para buscar os imunizantes na Índia.

Com o fracasso da operaĆ§Ć£o, Bolsonaro teve que assistir ao governador de SĆ£o Paulo, JoĆ£o Doria (PSDB), ser o protagonista do início da vacinaĆ§Ć£o no Brasil.

AdversĆ”rio do Planalto, Doria foi o patrocinador político da Coronavac, vacina desenvolvida por uma farmacêutica chinesa em parceria com o Instituto Butantan. Sem os imunizantes da Oxford/AstraZeneca, a Coronavac é a única vacina disponível no momento no Brasil.

Após as críticas, Araújo determinou que as divisƵes do Itamaraty reunissem informaƧƵes sobre a situaĆ§Ć£o de imunizaĆ§Ć£o em diversos países.

O pedido gerou incomodo entre diplomatas, que consideraram o gesto atrasado e mais um sinal de que o planejamento da vacinaĆ§Ć£o nĆ£o estava nas prioridades do governo federal.

As determinaƧƵes, encaminhadas pelo comando do ministério a partir da terƧa (19), sĆ£o para que diplomatas enviem ao gabinete de Araújo dados como o início da vacinaĆ§Ć£o nos diferentes países, os imunizantes escolhidos e a quantidade de populaĆ§Ć£o que jĆ” foi protegida. Uma tabela estĆ” sendo atualizada com esses dados.

A equipe de Araújo também pede dados sobre se os diferentes governos estĆ£o enfrentando dificuldades para comprar matérias primas.

O chanceler ordenou ainda que os diplomatas informem se os países que estĆ£o sob sua alƧada de trabalho sĆ£o produtores de insumos para vacinas contra a Covid-19 e se eles estĆ£o em condiƧƵes de exportĆ”-los para o Brasil.

De acordo com interlocutores, havia um monitoramento do atual estĆ”gio da vacinaĆ§Ć£o no mundo através de expedientes enviados pelas embaixadas, mas ainda nĆ£o tinha ocorrido uma solicitaĆ§Ć£o do comando da instituiĆ§Ć£o para centralizar essas informaƧƵes.

A corrida por informaƧƵes de Araújo ocorre no momento em que o Brasil corre o risco de ver sua campanha de vacinaĆ§Ć£o atrasar ainda mais com dificuldades encontradas para a compra de matérias primas que estĆ£o na China.

Os dois centros no Brasil responsĆ”veis por fabricar imunizantes dependem da liberaĆ§Ć£o por Pequim de cargas de insumos.

A Fiocruz jĆ” adiou a previsĆ£o de entrega das primeiras doses da Oxford/AstraZeneca produzidas no Brasil de fevereiro para o início de marƧo, justamente pelos problemas no fornecimento de insumos.