UFMG receberá R$ 30 milhões para testar nova vacina contra Covid

Os cientistas envolvidos estabeleceram um projeto em busca de uma vacina que seja efetiva contra novas variantes. “A plataforma tecnológica usada consiste na combina√ß√£o de diferentes proteínas para formar uma única, artificial. Esse composto, chamado de "quimera", é injetado no organismo em duas doses e induz à resposta imune. Por n√£o usar exclusivamente a proteína S, na qual se d√° a maioria das muta√ß√Ķes, as chances de sucesso desse imunizante no combate às novas variantes s√£o bastante elevadas”, destaca a nota da UFMG.

Testes pré-clinicos

Nos testes pré-clínicos, com animais, os resultados têm se mostrado promissores. Quando inoculada em camundongos, foi observada uma resposta adequada: a formula√ß√£o induziu 100% de prote√ß√£o. Agora est√£o sendo realizados ensaios de tolerabilidade e imunogenicidade em primatas n√£o humanos. Esses experimentos buscam detectar possíveis efeitos colaterais e confirmar a gera√ß√£o de anticorpos.

O início das fases 1 e 2, quando s√£o realizados os primeiros testes com grupos reduzidos de adultos saud√°veis, depende de autoriza√ß√£o da Agência Nacional de Vigil√Ęncia Sanit√°ria (Anvisa). Antes de conceder o aval, a Anvisa avalia os resultados da etapa pré-clínica.

Os recursos disponibilizados pela prefeitura ser√£o usados para concluir os experimentos com os animais, comprar reagentes, produzir lotes de teste para an√°lise da Anvisa, preparar documenta√ß√£o e realizar os primeiros testes com adultos saud√°veis. Nas fases 1 e 2, s√£o analisadas, entre outras quest√Ķes, a seguran√ßa da vacina e sua capacidade de gerar resposta imune em seres humanos.

Caso os resultados sejam positivos, pode-se requerer à Anvisa o início da Fase 3, na qual a efic√°cia ser√° avaliada com milhares de volunt√°rios. Se todas as etapas correrem conforme a expectativa dos cientistas, a vacina pode estar disponível para uso em massa em meados de 2022. A evolu√ß√£o das pesquisas, no entanto, demandar√° novos aportes financeiros para a Fase 3, a mais complexa. Segundo a UFMG, deputados estaduais j√° manifestaram compromisso em ajudar a garantir a verba necess√°ria.

Existe a possibilidade de se direcionar para os experimentos uma fatia do montante previsto no acordo firmado entre o governo mineiro e a mineradora Vale para repara√ß√£o dos danos da tragédia de Brumadinho, ocorrida em janeiro de 2019 com o rompimento de uma barragem de rejeitos no município. A empresa comprometeu-se a destinar R$ 37,6 bilh√Ķes para diversas medidas, algumas das quais de car√°ter compensatório e voltadas para melhoria da saúde, saneamento e mobilidade no estado. Os deputados estaduais mineiros têm que aprovar a aplica√ß√£o de parte dos recursos do acordo.

Produção brasileira

A Spintec est√° sendo desenvolvida no CT-Vacinas, um centro de biotecnologia instalado no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-Tec). O espa√ßo é resultado de uma parceria entre a UFMG e o Instituto René Rachou, unidade regional da Funda√ß√£o Oswaldo Cruz (Fiocruz), institui√ß√£o científica vinculada ao Ministério da Saúde.

A Fiocruz j√° produz, em sua sede no Rio de Janeiro, a vacina Covishield, que est√° em uso no Brasil e foi desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica inglesa Astrazeneca, institui√ß√Ķes com as quais foi firmado um acordo de transferência de tecnologia. Por enquanto, o ingrediente farmacêutico ativo (IFA), um dos componentes do imunizante, ainda est√° sendo importado, mas a Fiocruz j√° se prepara para produzi-lo no país, tornando a fabrica√ß√£o da Covishield 100% nacionalizada.

Outra vacina que est√° sendo aplicada no país, a CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan, também tem o envolvimento de pesquisadores brasileiros. O centro de pesquisa biomédica vinculado à Secretaria de Saúde de S√£o Paulo firmou um acordo com a Sinovac, labor√°tório chinês que desenvolveu o imunizante. O IFA dessa vacina também precisa ser importado.

Foto: Divulgação/GloboPlay

H√° outros imunizantes contra covid-19 em desenvolvimento no Brasil com a participa√ß√£o de institui√ß√Ķes de ensino superior, tais como as universidades de S√£o Paulo (USP) e a Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além de autorizar o avan√ßo de cada fase dos estudos clínicos, cabe à Anvisa dar a palavra final sobre a aplica√ß√£o em massa do imunizante na popula√ß√£o – a agência pode conceder a autoriza√ß√£o para uso emergencial ou o registro definitivo.

Até o momento, quatro imunizantes est√£o liberados para o combate à pandemia no Brasil, e dois s√£o totalmente produzidos no exterior. Uma das vacinas foi desenvolvida pela farmacêutica norte-americana Pfizer em parceria com a empresa alem√£ BioNtech, e o primeiro lote destinado ao Brasil deve desembaracar na noite desta quinta-feira (29) no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, S√£o Paulo. A outra é da Janssen, bra√ßo farmacêutico da multinacional Johnson & Johnson, e deve come√ßar a ser entregue ao país apenas em agosto.

A microbiologista Ana Paula Fernandes, uma das envolvidas no desenvolvimento da Spintec, considera importante o investimento em produtos brasileiros, mesmo que j√° existam no mundo diversas op√ß√Ķes de vacinas para o combate à covid-19. “N√£o sabemos a dura√ß√£o da imunidade, é preciso atestar a seguran√ßa de algumas vacinas e talvez precisemos obter produtos específicos para faixas et√°rias distintas”, disse Ana Paula, que destacou ainda as dificuldades para importar e produzir insumos no Brasil. “Além disso, estamos descobrindo variantes que devem exigir outros tipos de vacinas.”